Três passos à frente, um atrás*

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Três passos à frente, um atrás*

Mensagem por Admin em Sab Mar 12, 2016 11:58 pm

Hoje, tive duas oportunidades de passar a perna em um bocado de gente, 18 pessoas, ao passar à frente delas e apressar meu atendimento na longa fila da única agência dos Correios, de minha cidade.

Antes, lembro que ontem, um cidadão aparentemente desconcertado, pedindo “desculpa aí” repetidas vezes, se aproximou da fila em que me encontrava, e pediu a um amigo, duas pessoas à minha frente, para pagar a conta dele, entregando dinheiro e boleto.

Ao chegar sua vez no caixa, antes de tratar de seu próprio interesse, o cara da fila resolveu primeiro o drama do amigo.

Este, em pé ao lado da fila, enquanto aguardava, disse lá algo incompreensível, para justificativa a atitude. Ao receber de volta o boleto do amigo, devidamente pago, saiu repetindo, baixinho, “desculpa aí” repetidas vezes, aparentemente constrangido.

Surge uma desconhecida

Finalmente, tive minha oportunidade de furar a fila, hoje. Cheguei cedo aos Correios, uns dez minutos antes de abrirem as portas.

Muitas pessoas, pouco menos de 30, aguardavam o momento. Quanto a agência abriu, todos foram entrando calmamente, recebendo senhas do vigilante.

Como cheguei praticamente por último, deixei a multidão entrar e só depois retirei minha senha, de número 818.

O mostrador indicava que o guichê 794, pois já havia duas pessoas sendo atendidas. Havia, portanto, 24 pessoas para serem atendidas antes de mim. Depois de algum tempo, enquanto aguardava em pé, uma desconhecida se aproximou.

Ela perguntou qual era minha senha e me ofereceu uma de número menor, 800. Era minha chance de pular de posição na fila e, assim, passar a perna em 18 pessoas!

Recebi a nova senha e agradeci. Comecei a pensar nisso. Imaginei que essa atitude de furar a fila é parte do famoso jeitinho brasileiro, entranhado no nosso caráter, na nossa cultura.

O que é o “jeitinho”

O jeitinho é a tendência que temos de por em segundo plano as relações públicas e até profissionais, para colocar, em primeiro lugar, as relações familiares e pessoais.

Essa tendência é resquício da nossa colonização e, principalmente, do escravagismo – com o qual convivemos por centenas de anos – e suas terríveis conseqüências.

O malandro teria surgido como uma artimanha de ex-escravos e descendentes deles, os mulatos, para driblar o preconceito e ser reconhecidos como cidadãos.

O historiador Sérgio Buarque de Holanda disse que o caráter do brasileiro seria o que chamou de homem cordial.

Parei com meus devaneios quando o painel luminoso tilintou a senha 799. Olhei para todas aquelas pessoas. Se eu atendesse ao chamado 800, iria me dar bem. Mas e os outros?

O guichê chamou 800. Esperei. Chamou de novo. E mais duas vezes. Embolei a senha e a joguei no balde de lixo.

Continuei com meus devaneios. O negócio do homem cordial é rejeitar tudo o que é impessoal, principalmente dos sistemas administrativos, para dar mais importância à sua própria pessoa que, para ele, importa mais do que o resto.

O painel mostrou a senha

Claro, os políticos que elegemos somos nós mesmos. Nós, brasileiros, nos tornamos cidadãos elegíveis e somos eleitos por nós mesmos.

E levamos para o Legislativo, nos municípios, nos Estados e em Brasília, o mesmo jeitinho que usamos para lidar em nossas próprias vidas e interesses pessoais.

De repente, olho para um balcão ao lado e vejo uma senha, deixada ali por alguém. Era de número 810. Olhei para o painel, que indicava 808. E agora?

Tinha mais uma chance. Deveria aproveitar? Adiantaria 8 posições na fila e eu me daria bem. Quando o painel faiscou 810, eu estava mais do que decidido. Embolei a senha e a atirei no balde.

O fato é que aplicamos o jeitinho em todas as áreas, em todo lugar, a todo momento. E seu problema é que, quem usa o jeitinho para se dar bem, invariavelmente passa um bocado de gente para trás.

Um passo para trás

A corrupção, essa praga, é filha do jeitinho. Ou seja, com o tal jeitinho, o Brasil torra por ano mais de R$ 1 trilhão por ano, quase o PIB da Argentina, em atos corruptos.

Não é à toa que se diz que, se não fosse o jeitinho/corrupção, o Brasil seria outro. Seríamos mais ricos. Seríamos mais civilizados. Contudo, este país anda três passos para frente, o que é bom, mas volta um atrás.

O guichê eletrônico chamou a senha 818. Era a minha. E era legítima. O guichê que me atendeu não tinha etiquetas de Sedex disponíveis e tive perder mais três posições, enquanto um funcionário providenciava os adesivos.
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